|
|
| Editorial |
| |
| Editorial |
| Do outro lado da barricada |
| 16:35, quinta-feira, 8 de Julho de 2010 |
Ao longo de cinco anos, Sócrates e seu governo pôs em prática a política neoliberal que o capital impôs. Atacou os trabalhadores e protegeu os patrões. Criou mais desemprego. Congelou ou diminuiu salários, pensões e reformas dos trabalhadores. Subiu a idade da reforma. Aumentou impostos sobre os rendimentos do trabalho. Aprovou legislação contra os trabalhadores. Privatizou empresas públicas rentáveis, sectores estratégicos do Estado (e promete continuar). «Reformou» a Administração Pública (liquidou postos de trabalho, mandou trabalhadores para a «mobilidade», encerrou serviços públicos). Fechou escolas, maternidades, valências em centros de saúde, linhas-férreas, postos dos correios, quartéis da GNR. No plano da União Europeia, teceu loas aos tratados e às políticas que consagravam e aprofundavam o neoliberalismo. Com a «crise», agravou todas essas políticas antipopulares, impondo (em conluio aberto ou encapotado com o PSD e o PP) os PEC I e II, a mando de Bruxelas e do FMI. Tudo isto – num clima de corrupção envolvendo as elites governantes do País – favorecendo o enriquecimento e as negociatas dos grandes grupos económicos, dos especuladores, da banca e aumentando o fosso entre ricos e pobres. Foi por isso que, nestes anos, os líderes do PSD, depois do breve equívoco de Santana Lopes – Marques Mendes, Luís Filipe Menezes, Manuela Ferreira Leite – não medraram: o PS no governo fazia melhor o trabalho da direita. Agora, a propósito da «golden share» que utilizou, e bem, num negócio em que a espanhola Telefónica tentou liquidar a PT, veio Sócrates, acossado pela subida do PSD nas sondagens, denunciar o ultraliberalismo da Comissão Europeia do amigo Durão Barroso e criticar os ataques de Passos Coelho contra o «estado social europeu» e a Constituição da República. No seu novo discurso de «esquerda», o líder do PS foi apoiado por alguns ideólogos do partido, desde o antigo secretário-geral Ferro Rodrigues, agora embaixador de Portugal na OCDE, até ao «malhador-mor» do reino, Augusto Santos Silva, antes encarregado da propaganda, agora ministro da Defesa. Para esta gente, como a experiência do Portugal de Abril mostra bem, nunca é tarde para cambalhotas ideológicas – sobretudo ao cheiro de eleições antecipadas. Mas, convenhamos, é preciso ter desfaçatez para este Governo PS/Sócrates tentar, nesta altura, demarcar-se das políticas antipopulares responsáveis pela actual situação de desastre económico e social no País. O «arrependimento» é descarado e tardio. A maioria dos trabalhadores, os democratas – aqueles que, de forma coerente, sempre denunciaram e condenaram as opções neoliberais e que nestes dias prosseguem nas ruas e praças o combate contra o desemprego e a precariedade, por mais e melhor empregos, salários, direitos, serviços públicos –, não se devem deixar enganar pelas manobras dos Sócrates, Passos Coelhos e Portas e as falsas querelas entre eles que visam apenas criar «alternativas» entre os senhores do poder. E compreenderem bem que, à parte uma ou outra questão de estilo ou de discurso, essa é gente que está toda do outro lado da barricada.
|
| voltar» |
|