|
|
| Opinião |
| |
| Opinião |
| Uma História contemporânea de Portugal (segundo um moderno cronista da Corte) |
| 18:15, quinta-feira, 4 de Fevereiro de 2010 |
|
O meu interesse primordial visava, obviamente, a III Parte. Em especial, procurava saber como o seu autor – Rui Ramos (RR), historiador já formado em liberdade democrática – iria descrever/analisar um período histórico que envolveu a nossa vida, a geração precedente e determina a dos nossos filhos. Daquilo que de RR tinha lido, colhi a ideia de ser um intelectual competente no seu ofício e de mentalidade aberta. Para maior curiosidade, confessava-se homem de direita (no jornal «Público, onde colabora). Estaria na presença de uma avis rara? Relanceando a partir dos capítulos VI e VII da III Parte, respeitantes à I República Democrática (1910/1926), desde logo se pode notar que RR admite a tese do «bambúrrio» (do feliz acaso), muito cara aos monárquicos e restantes vencidos, como explicativa do triunfo dos republicanos a 5 de Outubro de 1910. Uma vitória pouco participada, diz. Sem apoio popular significativo; para, mais adiante, vir a admitir que a «ideia de República» estava generalizada entre o povo e a burguesia patriótica. (A primeira revolta republicana fora em 31 de Janeiro 1891, dezanove anos antes). Mas é só consultando a Cronologia Seleccionada (pág. 861) que é possível percepcionar o desencadeamento imediato dos ataques contra a recém-nascida República. Aí se lê que logo a 5 de Outubro de 1911, exactamente um escasso ano sobre a proclamação do novo regime, uma invasão (a que chamam incursão) a partir da Galiza, de uma coluna armada de exilados comandada pelo capitão de cavalaria Paiva Couceiro (o derrotado na Rotunda), contando com o apoio do governo de Madrid e do rei de Espanha Afonso XIII, tentou provocar o levantamento da população rural/católica do Norte contra a República. A contra-revolução iniciava a sua macabra função de desestabilização e sabotagem. Essa primeira investida foi rechaçada pela tropa fiel e pela população; no entanto, menos de um ano depois, a 6 Junho 1912, nova «incursão» sofreu igual desaire. Mas os contra-revolucionários continuaram organizados do outro lado da fronteira, ameaçando a república democrática; e sempre com o apoio da monarquia espanhola. Por fim, em 9 Janeiro 1919, tinha o exército português acabado de regressar da Flandres e das campanhas de África contra os alemães, Paiva Couceiro consegue ocupar a cidade do Porto e aí proclamar a «Monarquia do Norte». Pouco durou. A República sabia defender-se, como reconhece RR. Quando a reacção monárquica tentou repetir o golpe em Lisboa, o governo mobilizou a população, distribuiu armas aos civis republicanos, cujos destacamentos, em conjunto com forças da Marinha, liquidaram a fugaz «monarquia do Monsanto» numa arrancada que ficou célebre. Na cronologia dos acontecimentos, RR (?) situa o deflagrar da «guerra civil» na sequência da derrota monárquica de 1919. Ora, na verdade, a guerra interna contra a República – a contra-revolução, muito simplesmente – fora declarada e empreendida pelos reaças de todo o matiz, nomeadamente os católicos de obediência eclesiástica, desde a promulgação da Lei de Separação do Estado das Igrejas em 20 de Abril de 1911; isto é, desde que os sectores mais reaccionários e retrógrados do País se aperceberam que o Partido Republicano (PRP) de Afonso Costa iria cumprir, honesta e rigorosamente, os compromissos e as promessas constantes do sua propaganda programática; e onde a Lei da Separação tinha sido – e era – a bandeiras mais flamejante. A contra-revolução visando a destruição da República Democrática de 1910 e a restauração do statu quo ante foi feroz, sem tréguas, chegando ao bombismo e ao assassinato político. Tal qual veio a suceder em 1974-75 contra a Revolução de Abril. Assim, também os «militares moderados» da 2.ª década do século passado conspiraram desde a primeira hora contra a revolução democrática. Em Maio de 1915, os golpistas militares organizados no «movimento das espadas» conseguiram alcançar o poder; mas foram rapidamente desalojados pela enérgica resposta do povo armado em Lisboa, sob a direcção do PRP. Não desistiram. Recorreram ao assassinato. Na «noite sangrenta» (19 de Outubro de 1921) pereceram às mãos de sicários pagos pela reacção monarco-clerical o chefe do governo António Granjo (horrorosamente torturado), os heróis da República Machado dos Santos e Carlos da Maia. RR escreve que «os radicais ajustaram contas com os republicanos que, desde 1911, lhes haviam resistido» (pág. 617). Lê-se... e custa a acreditar. O cronista não tem uma palavra de condenação. E chama «radicais» aos contra-revolucionários inimigos da República! Passa em silêncio as conclusões da investigação, devida em exclusivo à dedicação heróica da viúva da Carlos da Maia, onde ficou apurada a responsabilidade de elementos destacados da Igreja na conspiração assassina. Acrescento apenas só mais um rabo-de-gato, dos muitos que Rui Ramos deixou de fora no seu breve aperçu (percepção, será uma boa tradução) sobre a I República Democrática Portuguesa. Lembrou-se ele do Integralismo Lusitano – nacionalistas protofascistas – como «o movimento de maior sucesso conquistando liceus e universidades» (pág. 602); «eram jovens sobretudo iconoclastas professando um snobismo chique... e foi essa a sua força perante os governos republicanos» (fim de citação). Lembro-me eu agora que também por cá tivemos essa canalha contra-revolucionária anti-Abril. Os emeérres e outros esquerdalhos cheirando a chique e a merda. RR, pelos vistos, apercebeu-se do seu papel histórico.
O autor dedica 70 páginas (cap. XVIII e XIX) ao período de 48 anos de regime ditatorial militar/fascista. Em geral a abordagem continua a pretender ser desprendida, neutral. Por suposto, o historiador como profissional deixa de ter interesses quer individuais, ideológicos ou de classe; converte-se num simples narrador de factos, num cronista. Ora tal como acontece com a cronologia relativa ao período de 16 anos da I República, também a cronologia dos seguintes 48 anos (págs. 862/4) acaba por fixar os acontecimentos que, do ponto de vista do autor/coordenador da obra, serão os mais marcantes da época. Assim, entre outros, surgem destacados: em 1927, fracassa a insurreição armada republicana contra a ditadura militar. Em 1958, a campanha eleitoral de general Humberto Delgado. O ano ominoso de 1961, que ditou a condenação internacional do fascismo salazarento anunciando a sua próxima derrota histórica, mistura em seis linhas: o assalto ao paquete Santa Maria; início da guerra colonial em Angola; o fracasso da conspiração dos generais; o colapso do exército português na Índia. O assassinato de Humberto Delgado pela «polícia política» em Fevereiro de 1965, está assinalado. A Oposição antifascista, o movimento popular e estudantil, a resistência sem igual do PCP, merecem apenas duas referências: em 1945; e, em 1960, a evasão de Peniche. Estado Novo é a etiqueta que RR usa, quase exclusivamente, para designar o fascismo salazarento. Não tão neutral como isso, é caso para dizer; era da autoria e a sempre usada pelo chefe Manholas. Autoritarismo é a característica mais negativa que RR encontra no «anterior regime»; junta-lhe, por vezes, um crítico conservadorismo Curiosamente – ou talvez nem tanto – são as duas palavras-chave que Jorge Sampaio utilizou em 2002, era Presidente da República, na cerimónia do 28.º aniversário do 25 de Abril. Do alto da tribuna da Assembleia Parlamentar crismou o fascismo salazarista como «autoritarismo conservador». A complacência para com o regime fascista (com perdão de V. Exas.) impregna o texto de Rui Ramos em paralelo com um paternal desdém para com as fraquezas da Oposição e da Resistência. Algo muito parecido com a famosa «tolerância» pregada e praticada por Mário Soares; cujo reverso, indissociável, sempre foi uma severa apreciação de comunistas, esquerda revolucionária ou meramente desalinhada. A compreensão tolerante do cronista pelo regime que «amordaçou Portugal» perto de meio século (a expressão fez a glória do M. Soares oposicionista) manifesta-se em inúmeras observações e comentários. «(...) não é possível negar que o Estado Novo foi moderado (...) os assassínios foram muito raros e os presos políticos foram sempre poucos» (pág. 652). «Regimes democráticos contemporâneos na Europa apresentaram contabilidades repressivas análogas ou piores (...)» (idem). O pluralismo de opinião, dentro de estreitos e vigiados limites, continuou a ter expressão pública (...)» (deve ter sido o Soares que rebentou com a mordaça!). Rui Ramos grava em título de parágrafo a maravilhosa conjunção da «Repressão e a persistência do pluralismo». «Em 1940, Salazar parecia ter o País a seus pés. Além de Presidente do Conselho, era ministro das Finanças, dos Estrangeiros e da Guerra. A oposição estava desmantelada» (pág. 662). (Que ganda homem! Até o Sócrates de Alijó se morde todo de inveja). Segue por aí fora o cronista da Corte descrevendo a Obra do estadista, com percentagens e outras camuflagens; e as acrobacias do genial diplomata, virando a casaca consoante a sorte da guerras... da Mundial, da Fria... até a Colonial lhe acabar com a peçonha. Simultaneamente, RR vai apagando, ou mesmo rebaixando, a Resistência antifascista nas sua várias vertentes. Na circunstância não há vagar – e em nenhuma haverá interesse – para esmiuçar a perversa tolerância democrática dos anticomunistas/contra-revolucionários que a si próprios se têm apelidado de «moderados». Limitar-me-ei a três linhas na pág. 477. «No princípio de 1959, alguns militantes católicos e monárquicos entraram numa conspiração militar que, como as outras desde 1945, nunca saiu». Usando a fórmula sintáxica de RR, direi que não é possível negar que o objectivo dessa pequena nota pretende apenas apoucar as revoltas militares contra a ditadura; e, de caminho, rebaixar também a participação de sectores católicos e monárquicos na luta antifascista. Um historiador de ofício não pode tomar partido; muito menos para amesquinhar manifestações de revolta contra ditaduras e tiranias. Quando o faz... denuncia-se. «Revolta da Sé» foi como ficou registada nos anais da luta antifascista esta tentativa gorada de Março de 1959. Era sequela directa e repúdio pela farsa eleitoral do ano anterior (H. Delgado). Honra a quem se rebelou, sacrificou vidas e carreiras. Vários militares e civis foram presos e julgados, muitos outros conseguiram iludir a retaliação governamental. Francisco Sousa Tavares foi o monárquico mais empenhado; Manuel Serra o rebelde dirigente católico de sempre. Dos militares lembro, os então capitães Luís Vicente da Silva, Amílcar Domingues, e o comandante Vasco Costa Santos, ainda entre nós; Xavier de Brito e outros mais na GNR. Todos nos respectivos quartéis prontos a actuar. O julgamento em Tribunal Militar – como instituído era desde séculos – teve a presidi-lo dois íntegros oficiais que me apraz, aqui e agora, nomear: os coronéis de artilharia Teixeira de Almeida e Rui da Cunha. Em memória, como homenagem e exemplo. Pois receio bem que depois da «normalização» contra-revolucionária de 75/76 essa espécie de militares, já então rara, entrou em vias de completa extinção. Os cronistas da Corte só curam dos vencedores, é bem sabido. São orgulhosamente pragmáticos. Quando se trata de contestação ou revolta contra poderes ou interesses estabelecidos, apagam da história os dissidentes e os rebeldes. No Portugal da II República é esse o timbre da historiografia oficial, quer académica, quer mediática. No entanto, Rui Ramos força a nota e assim abre o jogo. No sentido em que 50 anos da existência de uma Pátria – que é a nossa – vividos sob o jugo de uma das mais duradouras ditaduras contemporâneas, aparecem narrados como um fait divers (um episódio, um contratempo, um percalço) sem consequências de maior. Escreve a págs. 653: «O regime assentava mais no conformismo que na mobilização»; devendo ler-se, imposição política. Síntese da opinião do autor/historiador sobre o lapso de 50 anos, apresentado como um mero «interregno fascista»! Mas o conformismo –ilustre investigador doutorado em Oxford – era o medo. É o medo que ficou incrustado no carácter conformista, submisso e humilde, do português comum na democracia de hoje. O medo que qualquer observador estrangeiro logo detecta num primeiro contacto com a realidade nacional. RR decerto também o sabe. Nem escapa à maioria dos sociólogos, dos intelectuais portugueses em geral. Está na moda, na boca dos críticos mediáticos que por aí abundam. O fascismo não foi uma banalidade, meu caro. Foi uma calamidade. E algum respeito deve haver para aqueles que nunca se conformaram nem se conformam. Distinguindo, como é justo, os comunistas portugueses sempre na primeira linha do combate e do sacrifício.
*
Torna-se indispensável uma 2.ª parte desta recensão, de modo a cobrir os caps. X e XI – «A Revolução do 25 de Abril» e «Uma Democracia europeia». Os leitores terão a paciência de aturar o meu «inconformismo» em próximo artigo.
|
| voltar» |
|