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Opinião
A receita
17:46, quinta-feira, 29 de Julho de 2010
1. Já para a plena madrugadinha, a SIC Notícias programara uma reportagem acerca de uns milhões de pessoas que no Peru sobrevivem (digamos assim) com o rendimento diário equivalente a dois dólares. Antes do mais, convirá lembrar que esta brutalidade não corresponde ainda ao que de pior acontece no planeta: há os que subsistem ou mais provavelmente agonizam com o equivalente a um dólar diário ou ainda menos. Talvez, porém, o caso do Peru nos choque um pouco mais por nos termos habituado a «ser natural» que a Ásia e a África sejam territórios de grandes fomes, ao passo que o Peru é um país da América Latina onde se fala o castelhano e que parece geograficamente próximo do Brasil, «nosso irmão». Quer dizer: chegámos a um ponto de insensibilidade em que já não nos importamos com o facto de estar a morrer de carências alimentares, eufemismo vocabular que designa a fome pura e simples, gente que se exprime numa linguagem que nos é de todo estranha nos sons e na escrita, mas incomoda-nos que o mesmo ou algo de muito próximo ocorra com populações cuja língua é próxima da nossa. E talvez ainda mais porque, olhado assim de longe, o Peru se nos afigura quase próximo dos Estados Unidos da América, essa terra que parece transpirar abundâncias por todos os poros, e desse modo o contraste entre a fome e a suposta saciedade nos fere mais agudamente a imaginação.

2. Porém, a tal reportagem não transportava apenas a tristíssima notícia da miséria: trazia também a sugestão, se não a promessa, de estar encontrado o antídoto para o mal, proeza que logo vemos não ser pequena quando nos lembramos de que há séculos e séculos que tal remédio é procurado. Mais: a informação assim prestada até contrariava se não os textos bíblicos, pois lá está a tal polémica referência a camelos e agulhas de estreitíssimo fundo, mas pelo menos a ancestral sabedoria que nos ensina que sempre haverá ricos e pobres pelo que mais nada há a fazer além de orar com muita resignação. É claro que uma coisa é ser simplesmente pobre, o que até parece que estimula as virtudes, e coisa diversa é um sujeito arrastar-se interminavelmente com dois dólares por dia ou ainda menos, situação que até pode levar à exasperação e à revolta quem não for resignado de sua natureza ou não tenha sido contemplado com os doces ensinamentos que incitam à paciência e à submissão. Ora, parece exactamente que está a acontecer por toda a América Latina, embora mais nuns lugares que noutros, essa falta de pachorra para aceitar a miséria. Talvez por isso tenha surgido agora o remédio, a receita para a moléstia apontada pela reportagem.

3. E, para surpresa de alguns mas não de tantos quantos poderia supor-se, segundo a reportagem a cura resultará da aplicação local do unguento que está na origem da actual situação de miséria insuportável que pesa sobre a maior parte das populações da América Latina: a prática do capitalismo ainda que em doses aparentemente menores e sob designações simpáticas como a de empreendedorismo e afins. O método já terá sido experimentado lá para os lados do Oriente, talvez porque por lá há muita gente que já está por tudo, talvez por qualquer outro motivo, sendo certo que proporcionou alguns êxitos, gerando até um Nobel da Economia. Porém, infelizmente para os preconizadores deste tratamento, vários e claros sinais revelam que as populações locais não partilham o mesmo optimismo quanto às virtudes do capitalismo cujo amargo gosto de resto conhecem há muito tempo: elas bem sabem que por detrás de um capitalista está sempre outro capitalista mais poderoso e mais implacável até à brutalidade final. E têm outros planos. Por isso um permanente frémito de rejeição das velhas imposições percorre praticamente toda a América Latina, os que ali eram os tradicionais senhores da vida sentem vacilar o chão que pisam, emergem caminhos que se rasgam para novos percursos. Perante tudo isto e decerto ainda muito mais, é altamente duvidoso que os povos da região se rendam ao suposto charme do pequeno capitalismo sem poderes e dependente de tudo. Arrastar uma sobrevivência ao preço de dois dólares quotidianos não chega para engendrar todas as capitulações e para fazer aceitar todas as receitas. Daqui a uns tempos, não se sabe quantos, talvez a TV nos volte a falar do Peru e dos peruanos. Para dizer-nos coisas diferentes do que nos veio contar agora.
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